A minha tia sempre dizia:
quem dá comida e abrigo a um cachorro, terá muita sorte na vida. Se for
verdade, o meu amigo Vladimir terá vida próspera. Foi exatamente isso que ele
fez: adotou uma cachorrinha de rua, e a levou para morar na sua república.
O nome dela é Teca. Teca foi encontrada na padaria,
quando era apenas um filhotinho. Isso aconteceu numa tarde, quando Vladimir
vinha da universidade e resolveu passar na padaria, pois na sua casa faltava
pão e leite. Ao entrar na panificadora, ele notou um aglomerado de pessoas conversando
em volta de alguma coisa, que a princípio, ele não conseguiu identificar o que
era. Vladimir, muito curioso, foi ver o que estava acontecendo. No meio das pessoas,
uma cachorrinha latia indefesa. Um rapaz, magro e alto, dava
a seguinte explicação: eu encontrei esta cachorrinha na rua, mas não posso
ficar com ela, por isso, eu a trouxe aqui, para ver se consigo encontrar alguém
que tenha condições de cuidar da pobrezinha.

Vladimir
ficou sensibilizado com a situação. Além do mais, fazia tempo que ele queria
ter um animalzinho de estimação. Depois de pensar alguns segundos e fazer algumas
contas na cabeça, Vladimir não teve mais dúvidas e ficou com a cachorrinha.
Todos, ali presentes, se sentiram aliviados. O gesto do estudante tirou um enorme
peso na consciência de muita gente. O rapaz – magro e alto –, agradeceu
profundamente. Vladimir se sentiu importante e orgulhoso do seu ato de amor.
O primeiro passo, corajoso, foi dado. Agora faltava convencer
os colegas de república a aceitar a nova moradora. Apenas um não gostou da
ideia, mas foi vencido pela ditadura da maioria. Teca, que era da raça
labrador, logo se tornou o mascate da casa. Cachorra dócil, de pelagem cor de
mel, se tornou adorada e paparicada pelos marmanjos.
Dona de desejo próprio, Teca não se acostumou ficar
sozinha na área externa da casa. Mesmos com os esforços dos meninos, que fizeram
até casinha de madeira forrada com colchão para a cachorra. Ela queria mesmo é
ficar o tempo todo dentro de casa: na cozinha, na sala, no banheiro, etc. Para
dormir, Teca gostava de descansar no quarto do Vladimir, enroscada no tapete da
sua cama. Mas um dia, Vladimir se sentindo incomodado, deu um “chega pra lá” na
cachorra, e passou a trancar a porta do quarto antes de ir dormir. Deste dia em
diante, Teca passou a dormir no pé da porta do quarto do rapaz.
Mas o tempo foi passando. E nenhuma república dura pra
sempre; afinal de contas, um dia a turma forma. Vladimir se mudou para um
apartamento muito pequeno. Lá não tinha lugar para Teca. Ainda bem que um dos
rapazes foi morar em um sítio com a namorada. O casal aceitou, numa boa, levar
a cadela para tomar conta da segurança do sítio. No sítio, Teca viveu a liberdade. Bastava olhar em volta, para ver a cachorra feliz da vida...
P.S.: Um ano e meio depois,
Teca morreu, vítima de uma doença que ataca o sistema nervoso. Esta zoonose foi
muito comum na época.