domingo, 17 de junho de 2012

Teca

A minha tia sempre dizia: quem dá comida e abrigo a um cachorro, terá muita sorte na vida. Se for verdade, o meu amigo Vladimir terá vida próspera. Foi exatamente isso que ele fez: adotou uma cachorrinha de rua, e a levou para morar na sua república. 
            O nome dela é Teca. Teca foi encontrada na padaria, quando era apenas um filhotinho. Isso aconteceu numa tarde, quando Vladimir vinha da universidade e resolveu passar na padaria, pois na sua casa faltava pão e leite. Ao entrar na panificadora, ele notou um aglomerado de pessoas conversando em volta de alguma coisa, que a princípio, ele não conseguiu identificar o que era. Vladimir, muito curioso, foi ver o que estava acontecendo. No meio das pessoas, uma cachorrinha latia indefesa. Um rapaz, magro e alto, dava a seguinte explicação: eu encontrei esta cachorrinha na rua, mas não posso ficar com ela, por isso, eu a trouxe aqui, para ver se consigo encontrar alguém que tenha condições de cuidar da pobrezinha.
Vladimir ficou sensibilizado com a situação. Além do mais, fazia tempo que ele queria ter um animalzinho de estimação. Depois de pensar alguns segundos e fazer algumas contas na cabeça, Vladimir não teve mais dúvidas e ficou com a cachorrinha. Todos, ali presentes, se sentiram aliviados. O gesto do estudante tirou um enorme peso na consciência de muita gente. O rapaz – magro e alto –, agradeceu profundamente. Vladimir se sentiu importante e orgulhoso do seu ato de amor.
            O primeiro passo, corajoso, foi dado. Agora faltava convencer os colegas de república a aceitar a nova moradora. Apenas um não gostou da ideia, mas foi vencido pela ditadura da maioria. Teca, que era da raça labrador, logo se tornou o mascate da casa. Cachorra dócil, de pelagem cor de mel, se tornou adorada e paparicada pelos marmanjos.
            Dona de desejo próprio, Teca não se acostumou ficar sozinha na área externa da casa. Mesmos com os esforços dos meninos, que fizeram até casinha de madeira forrada com colchão para a cachorra. Ela queria mesmo é ficar o tempo todo dentro de casa: na cozinha, na sala, no banheiro, etc. Para dormir, Teca gostava de descansar no quarto do Vladimir, enroscada no tapete da sua cama. Mas um dia, Vladimir se sentindo incomodado, deu um “chega pra lá” na cachorra, e passou a trancar a porta do quarto antes de ir dormir. Deste dia em diante, Teca passou a dormir no pé da porta do quarto do rapaz.
            Mas o tempo foi passando. E nenhuma república dura pra sempre; afinal de contas, um dia a turma forma. Vladimir se mudou para um apartamento muito pequeno. Lá não tinha lugar para Teca. Ainda bem que um dos rapazes foi morar em um sítio com a namorada. O casal aceitou, numa boa, levar a cadela para tomar conta da segurança do sítio. No sítio, Teca viveu a liberdade. Bastava olhar em volta, para ver a cachorra feliz da vida...
 
P.S.: Um ano e meio depois, Teca morreu, vítima de uma doença que ataca o sistema nervoso. Esta zoonose foi muito comum na época.