sábado, 27 de outubro de 2012

Na janela da cozinha



            Nas férias do meio ou do final de ano, Bia sempre ia pra casa do pai passar alguns dias. O pai dela morava numa fazenda que ficava bem longe da cidade; quando ela aparecia, o velho ficava satisfeito.
Na fazenda, o pai de Bia morava sozinho e não tinha empregada. A garota até gostava, pois se sentia a dona da casa, pelo menos por alguns dias.
Acabado de completar 15 aninhos, Bia já era bem madura pra sua pouca idade. A vida tinha lhe mostrado como ser forte; além do mais, ela tinha um bom exemplo para se espelhar: a mãe. 
Assim que chegava, Bia arregaçava as mangas e logo dava um jeito na bagunça do casarão velho, que não era pouca. A sujeira nem se fala; era muita poeira depositada sobre os poucos móveis que ficavam espalhados pelos vários cômodos da casa.
O pai de Bia falava pouco e ficava olhando pra filha que estava virando moça. Bia não demoraria arrumar um namoradinho. Isso deixava o pai enciumado, que imediatamente tratava de pensar em outras coisas.
Mas o que Bia gostava mesmo era das tardes em que o pai ia até o quintal e cortava o cacho de banana mais bonito. O café que ela coava ficava no copo mesmo, pois a garrafa térmica tinha quebrado e ninguém havia comprado outra. Depois de descascada, a banana era cortada em rodelas e frita no óleo. Acompanhada com café, ficava deliciosa. Bia adorava tudo aquilo e sentia-se feliz por estar ali.
Então, ela e o pai iam até a janela da cozinha e ficavam avistando a serra, onde tinha uma nascente d’água. Bia perguntava ao pai aonde estavam os cabritinhos. O pai, satisfeito, mostrava os pontinhos brancos no alto de uma pedra.