quarta-feira, 14 de março de 2012

O pai


 
Restaurante Universitário

                  
            Ruan sentou sozinho em uma das poucas mesas vagas do Restaurante Universitário. O local estava muito cheio, porém ele não avistou nenhum conhecido seu, para almoçar juntos. Ele olhava distraído, pela janela de vidro, os carros passando na rua, quando apareceu um rapaz, pedindo licença para se assentar.
            O rapaz, que aparentava ser mais velho, devia ser estudante da pós-graduação. Ele usava óculos de grau, e os seus olhos eram azuis. O cabelo loiro estava cortado bem rente a cabeça, talvez na máquina um. No seu rosto uma expressão de seriedade foi notada por Ruan, ao olhar para o desconhecido e balançar afirmativamente a cabeça, permitindo que aquele rapaz se assentasse a sua mesa.
            O almoço estava “mais ou menos”. O tempero, como sempre, tinha passado longe. A carne do dia era almôndega, que desta vez estava frita, em vez de vir servida ao molho, como de costume. Ruan, disfarçadamente olhou para o desconhecido em sua frente. Este, com a cara de pouca fome, comia olhando fixamente para algum ponto do RU.
            Logo depois, o celular do rapaz tocou. O barulho era tanto que ele atendeu, falando bem alto. “O pai não manda dinheiro para mim desde que terminei a graduação”, foi à primeira coisa que ele disse. Pelo que o Ruan pode notar, o rapaz falava com o seu irmão, que se chamava Wander. “Você sabe como o pai é, sempre inventado alguma coisa”, continuou o desconhecido, que agora tinha parado de comer.
            A conversa continuou e Ruan ouvia cada palavra dita pelo rapaz, logo a sua frente. Ruan, curioso desde menino, logo se interessou pelo assunto. Era impossível não ouvir o diálogo entre os dois irmãos, devido à proximidade. “Wander, eu já paguei ao pai todo o dinheiro que ele gastou comigo na faculdade”, falou o rapaz. Ruan arregalou os olhos e apurou os ouvidos. – Como assim?, – se perguntou Ruan, atento a continuidade da conversa.
            O dinheiro investido pelo pai na formação dos filhos, agora era cobrado até os últimos centavos. O Wander, irmão do rapaz desconhecido, ligava querendo saber o motivo do pai estar cobrando esse dinheiro. Dinheiro que tinha sido cobrada ao rapaz, assim que ele terminou a graduação e entrou no mestrado.     
O rapaz, pelo que Ruan entendeu, tinha gasto vinte e um mil reais, nos cinco anos vividos em Viçosa. Anos de muito estudo e quase nenhuma festa. Ele pagou todo esse valor ao seu pai. O última parcela, foi paga no começo do ano, quando ele já tinha passado da metade do doutorado. “Wander, como eu já paguei tudo ao pai, ele agora está pedindo dinheiro a você”, disse o rapaz.
            Ele também, reclamou ao irmão, que ainda não tinha desfrutado do dinheiro ganho com a bolsa de pesquisa. O seu antigo sonho de comprar uma moto ainda não tinha se concretizado. “Eu já perguntei ao pai o que ele faz com esse dinheiro, pois é um dinheiro suado”, falava o rapaz. Ninguém sabia o paradeiro do dinheiro recebido pelo pai dos meninos.
            Ruan ficou pelo avesso com aquela história. Ele, que tinha um bom convívio com o seu pai, nunca imaginava que isso pudesse acontecer com alguém. O rapaz despediu do irmão e desligou o celular, mas antes, dando um conselho. “Wander, é melhor pagar, afinal de contas o dinheiro é do pai”. O rapaz comeu o resto da sua comida rapidamente. Antes de se levantar e desaparecer no meio dos estudantes, ele pediu novamente licença a Ruan, que nada disse.