Na
escrivaninha do apartamento mal iluminado, uma moça, solitária, fazia o
“fixamento” de um dos textos de Foucault. Era tarde da noite e as outras meninas, que
ali também moravam, já estavam dormindo. Sentada em uma velha cadeira, que às vezes
rangia, a moça se debruçava sobre a apostila, “xerocada” dias antes.
Ela estava ali desde as onze horas da noite. Passava das
duas da madrugada, quando tomada pelo cansaço, os seus olhos, castanhos claros,
começaram a ficar marejados. “Isso é bom pra mim aprender, péssimo hábito de deixar
para fazer as coisas sempre na última hora”, pensava a moça, que se cobrava.
Logo após o almoço, o trabalho, pronto, deveria estar
sobre a mesa da professora, que era muito exigente e tinha fama de carrasco.
Faltava muito ainda, algo em torno de três páginas, para completar as oito, o
mínimo exigido. Tomada de repente por ânimo renovado, a moça voltou para as
teorias de Foucault.
De repente a porta da cozinha rangeu. A moça olhou na
direção da porta e viu que esta não estava mais fechada, como antes. Ela se
levantou e fechou a porta. Passado alguns minutos, a porta voltou a se abrir,
fazendo o mesmo ruído. A moça novamente se lanvantou e fechou a porta, procurando alguma
janela aberta, por onde uma corrente de ar poderia estar passando. Convencida de que só poderia ser o vento o responsável
por abrir a porta, e que este tinha entrado por alguma greta, pois todas as
janelas estavam fechadas, a moça voltou para mais uma página. Antes de terminar de ler
a página, ela escutou um barulho vindo do prédio vizinho: uma porta se batendo
muito forte, três vezes, em sequência.
A moça foi até a janela e a abriu. Ela olhou para o
prédio vizinho, que estava sendo construído e não viu nada além da escuridão. Nenhuma
luz acesa em seu interior e nenhum sinal do vigia, que poderia estar tomando
conta da construção.
Uma
onda de medo, instantaneamente, invadiu o seu corpo. Os pelos do braço
arrepiaram. A sua coluna tremeu com o frio que subiu até a nuca. Há muito
tempo ela não sentia medo assim, tão intenso. Sem hesitar, fechou rapidamente a
janela e foi para a cama. Quando o dia amanheceu, a moça não sentia mais
medo. O que sobrou daquela madrugado foi apenas histórias, que ela contou,
ansiosa, para as suas amigas de quarto.