quinta-feira, 24 de maio de 2012

O vento da madrugada

Na escrivaninha do apartamento mal iluminado, uma moça, solitária, fazia o “fixamento” de um dos textos de Foucault. Era tarde da noite e as outras meninas, que ali também moravam, já estavam dormindo. Sentada em uma velha cadeira, que às vezes rangia, a moça se debruçava sobre a apostila, “xerocada” dias antes.
                                                              Do lado de fora, o vento frio soprava sempre na mesma direção, anunciando que o inverno não demoraria chegar. O barulho do motor da geladeira consul, que acabava de ligar, foi escutado pela moça, assim como o gotejar da torneira da pia da cozinha.
           Ela estava ali desde as onze horas da noite. Passava das duas da madrugada, quando tomada pelo cansaço, os seus olhos, castanhos claros, começaram a ficar marejados. “Isso é bom pra mim aprender, péssimo hábito de deixar para fazer as coisas sempre na última hora”, pensava a moça, que se cobrava.
           Logo após o almoço, o trabalho, pronto, deveria estar sobre a mesa da professora, que era muito exigente e tinha fama de carrasco. Faltava muito ainda, algo em torno de três páginas, para completar as oito, o mínimo exigido. Tomada de repente por ânimo renovado, a moça voltou para as teorias de Foucault.
           De repente a porta da cozinha rangeu. A moça olhou na direção da porta e viu que esta não estava mais fechada, como antes. Ela se levantou e fechou a porta. Passado alguns minutos, a porta voltou a se abrir, fazendo o mesmo ruído. A moça novamente se lanvantou e fechou a porta, procurando alguma janela aberta, por onde uma corrente de ar poderia estar passando. Convencida de que só poderia ser o vento o responsável por abrir a porta, e que este tinha entrado por alguma greta, pois todas as janelas estavam fechadas, a moça voltou para mais uma página. Antes de terminar de ler a página, ela escutou um barulho vindo do prédio vizinho: uma porta se batendo muito forte, três vezes, em sequência.
        A moça foi até a janela e a abriu. Ela olhou para o prédio vizinho, que estava sendo construído e não viu nada além da escuridão. Nenhuma luz acesa em seu interior e nenhum sinal do vigia, que poderia estar tomando conta da construção.
Uma onda de medo, instantaneamente, invadiu o seu corpo. Os pelos do braço arrepiaram. A sua coluna tremeu com o frio que subiu até a nuca. Há muito tempo ela não sentia medo assim, tão intenso. Sem hesitar, fechou rapidamente a janela e foi para a cama. Quando o dia amanheceu, a moça não sentia mais medo. O que sobrou daquela madrugado foi apenas histórias, que ela contou, ansiosa, para as suas amigas de quarto.