sexta-feira, 16 de agosto de 2013

A vinda dela.



            Quando a porta abriu e ela entrou, o apartamento estava numa limpeza só. Ela gostou do que viu, elogiou. As horas de trabalho passadas esfregando e varrendo tinham sido válidas, a recompensa já tinha chegado. O que aconteceu, ali, foi mágica: da pilha de vasilhas amontoadas na pia da cozinha, eis o bojo brilhante; do banheiro esquecido, surgiu toalha de rosto e sabonete líquido para as mãos; o chão escuro e gorduroso, deu lugar para a brancura e o perfume de lírios do campo. 

            O ar agora estava leve e cheiroso, ela gostou, elogiou novamente. Ele se fez de bobo, ela não ficará sabendo, vai ser segredo. Sobre a cama, os edredons impecavelmente dobrados e milimetricamente distribuídos. 

Naquele dia de final de semana, a luz daquele quarto apagou mais cedo que de costume...     

terça-feira, 30 de julho de 2013

Dois rapazes


Dois rapazer caminhavam pela reta, quando um deles disse:

- O número doze é cabalisto, não exite os doze apostolos?

- É, existe sim, também existe os doze planetas, que regem os doze signos. - Ao que o outro respondeu balançando a cabeça afirmamente.

- Quais planetas regem o seu signo?

- Apenas um, cada signo é regido por apenas um único planeta.

- Que nada, o meu signo, por exemplo, é regido por três planetas: Mercúrio, Marte e Júpiter.

- Não, você está errado. Um planeta só pode reger um signo. O planeta que rege o meu signo é o Plutão, que aliás foi rebaixado. O planeta que rege meu signo foi rebaixado?! Vê se pode uma coisa dessas?

E assim continuaram caminhando dois rapazes. O sol da tarde já começa a se esconder atrás dos prédios da P. H. Rolfs.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Salão de beleza


Ela raramente ia ao salão de beleza fazer o cabelo, só quando aquela ocasião estava chegando é que ela procurava logo apreçar os salões a procura do melhor "custo benefício", expressão aprendida na matéria de economia que ela cursava na universidade. 

Seu namorado nunca entendeu direito o porquê  de só naqueles dias ela alisar os cabelos. A moça até que tentou explicar, mas vendo a falta de sensibilidade do namorado, desistiu. Quando o dia e a hora marcada chegaram, ela foi para o salão, toda feliz. Desta vez ela não iria apenas alisar, ia também contar (talvez uns cinco dedos) o cabelo encaracolado. 

No salão estavam três mulheres: a dona do salão, com quem a moça tinha olhado o preço, uma funcionário vestindo avental e uma senhora, que devia ser outra cliente com o mesmo horário. 

A conversa no salão estava animada e a moça foi para um quartinho, nos fundos do salão, lavar os cabelos para o corte. As mulheres palpitavam sobre as últimas manifestações ocorridas no centro da cidade. A outra cliente, que aparentava ter uns cinquenta anos de idade, dizia que nestas situações preferia ficar em casa, bem longe da confusão. Até uma consulta com o dermatologista ela tinha desmarcado, tudo isso para evitar ir até local onde passaria os manifestantes. A dona do salão, que lavava o cabelo da moça recém chegado, apenas concordava dizendo vários és.

Depois a moça foi conduzida até uma cadeira giratória e a tesoura da cabeleireira começou a trabalhar. Ela estava lado a lado com a mulher que evitava as manifestações e parecia ser muito rica, quando esta começou a contar as aventuras de sua última viagem com o marido ao Uruguai. O casal tinha ido de carro próprio e eles sempre faziam essas viagens a procura de casinos, pois o seu marido adorava jogar. Quando ele se aventurava nos jogos de azares, aquela mulher ficar sozinha num quarto de hotel confortabilíssimo vendo televisão. Mas a mulher disse que não se preocupava, já que seu marido era muito responsável, se ele estava perdendo no jogo, tinha a sensatez de parar a tempo e ir pra casa mais cedo do que de costume.

Com isso a moça que até então só escutava entrou na conversa, perguntado a mulher como era fazer todas estas viagens? A prancha quente desfazia as voltas em espirais dos cabelos um pouco mais curtos. A mulher depois de longas descrições dos lugares por onde já tinha passado, dos tipos de comidas exóticas que já tinha experimentado e do sonho que era fazer estas viagens ao lado do marido, que já era um setentão, perguntou a moça se ela morava por ali, perto do salão.

A moça disse que sim, mas era só por alguém tempo. Ela estava morando naquela cidade apenas para estudar. Sua cidade ficava muito longe, e...

terça-feira, 28 de maio de 2013

O catador de papelões

Na principal avenida da cidade, tida como a que tem o maior número de lombadas do país, os carros vão e vem. As luzes dos semáforos acendiam e depois apagavam sem parar. Um letreiro informava as horas e a temperatura do dia quente com sol a pino. Pelas calçadas o movimento não era menos intenso, pedestres (dos mais variados possíveis) caminhavam apresados aos seus trabalhos. Num canto da avenida longa um acontecimento digno de atenção: um senhor dentro de seu carro importado estende a mão com dois reais entre os dedos a um catador de lixo. 

O moço do carro sorriu com o agradecimento sincero do outro, que de semblante sério mostrou felicidade grande. Na carrocinha puxado pelo próprio trabalhador, que era novo, pois ainda não tinha trinta e cinco anos de idade, havia papelões empilhados...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

O bêbado pegador



           Eu já te contei o que aconteceu comigo quando eu fui a uma festa muito doida. Foi no meu primeiro ano de faculdade. Se não me falhe a memoria, pois já se passaram quatro anos, foi mais ou menos assim que tudo aconteceu. Eu fui com uns amigos. Era uma daquelas festas de bebida liberada que dura quatorze horas e a gente paga uma fortuna.

Para valer o ingresso, eu tomei todas. Mais desinibido com o álcool e encorajado pelos amigos chegou em muitas garotas. Em umas o papo colou, mas com as outras nem atenção ele recebeu.

Eu vinha na madrugada cantando, porque bêbado e assim mesmo, tudo e motivo pra alegria. A rua estava deserta e é nestas horas que a gente vira presa fácil de ladrão. Os amigos, que antes o acompanhava já não estavam mais, pois tinham seguido por outros caminhos.

            Mas graças ao protetor dos pinguços, o nosso amigo chegou bem em casa. A minha maior dificuldade foi abrir o portão. A chave não entrada no buraco da fechadura, só depois de muito custo é que consegui abri o portão.

Assim que ele puxou o portão passou uma mulata no passeio requebrando com sua sandália salto alto. Ele acompanhou aquela beldade com os olhos e viu a pele negra, os cabelos pretos e encaracolados, a cocha grossa e o bumbum empinado. Ele teve vontade de agarrar aquele mulherão. Ela estava vestindo vestido azul escuro coladinho no corpo o que desenhava suas curvas; o cheiro dela de perfume adocicado ficou no ar.

Sem pensar nas consequências ele soltou gracejos para aquela mulher que passava vindo sabe se lá de onde. Sabe o que foi que eu disse; disse que ela era muito gostosa e que eu estava doido pra ficar com ela.

            Até aí tudo bem, nada de anormal. Porém ele não esperava que aquela mulher misteriosa que também vagava pelas ruas vazias desse bola. Ela parou e parece que gostou de mim, pois sorriu. Eu retribui o sorriso e quando ela se aproximou beijei aqueles lábios carnudos que ainda estavam vermelhos de batom. Foi só beijo, não aconteceu mais nada.

Da mesma forma que ela apareceu ela se foi, sem falar nada. Uma coisa até hoje me atormenta o coração, como será a voz daquela mulata?

Depois que ela se foi, ele fechou o portão e subiu as escadas sem acreditar no acontecido; soltando os degraus ele dando gritos de alegria. Aquilo tinha salvo a sua noite. No outro dia, com a cabeça estourando de dor, ele recordava os fatos e achava que tudo aquilo tinha sido uma doideira.