Na época do meu avô
era comum ter arma de fogo guardada dentro de casa, na parte de cima do guarda
roupa. A lei já tinha proibido andar armado. Só nos casos realmente necessários,
como o aparecimento de cachorro zangado no inverno, é que se recorria à ajuda
da arma. Para o meu avô, ter a certeza que a sua arma estava escondida em um
lugar que só ele sabia, dava muita segurança.
X X X X X
Zé Maria tinha ido a cidade vizinha, Paçanha,
a negócio de venda e compra de gado. Finalizado o negócio e voltando para casa,
ele encontrou um compadre seu, o Afonso, amigo de longa data, que estava de
carro, e por coincidência, também estava vindo para São João do Lifonso. Após aceitar,
de bom grado, a carona, o Zé disse, “... é bom que a gente coloca o papo em dia,
nem compadre?”. O Afonso era comerciante e tinha uma mercearia no centro da
cidade, ele tinha acabado de comprar o carro, um fusca bege, novinho.
A
viagem transcorreu tranquila, sem nenhum incidente. “Eu tive foi muita sorte,
não sabe compadre, pois vendi bem os meus bezerros”, comemorava Zé. Já o Afonso
só tinha elogios ao seu “fusquinha”. Porém, do meio da estrada (que era de
terra) para frente, Zé Maria, que não era muito acostumado a andar de carro, só
em raríssimas ocasiões, começou a se sentir mal. Não que o Afonso fosse mau
motorista, pelo contrário; mas as curvas eram muitas, além, é claro, de um
outro agravante: os três pasteis de carne moída com café, que Zé comeu no bar
da esquina, depois de fechar o tal negócio.
Por esses
motivos, faltando menos de uma légua para chegar em casa, o Zé agradeceu a
carona e pediu ao seu compadre que o deixasse no próximo trevo. “... daqui pra
frente eu sigo a pé, talvez assim, eu melhore esse mal estar.”
A
noite estava um breu, nenhum sinal da lua no céu, que tinha sido cheia uma
semana antes. Mal dava para enxergar um palmo além do próprio nariz. Zé
levantou a cabeça e seguiu em frente, ora orientado pelas árvores da beira da
estrada, ora seguindo o percurso do rio São Nicolau, sobre o qual atravessou
por cima em uma velha ponte de madeira. Ao se aproximar de sua casa, Zé não a
avistou, pois naquela época ainda não havia luz elétrica na roça, que era
feita, na maioria das vezes, com a ajuda de velas e lampiões, ou pela própria
fornalha, que ficava com brasas até altas horas da madrugada. “Os meninos já
devem ter ido dormir”, pensava Zé, se dando conta que o mal estar já tinha
passado.
Logo
que abriu a porteira que dava para o terreiro, Zé foi surpreendido pela
Piranha, a cachorra da casa. Com pêlos e olhos negros, Piranha era enorme e
vigiava a fazenda com unhas e dentes. Com fama de brava, Piranha, em várias ocasiões,
por pouco não mordeu algum desavisado.
Zé
deu um passo para trás e começou a raiar com a cachorra, que não reconheceu o
dono e partia pra cima com vontade de morder. Depois de muito gritar com a
cachorra e de passar muito medo, é que o Zé conseguiu domar o animal, que enfim
reconheceu o dono, pelo cheiro.
Piranha
voltou para o mesmo lugar onde estava deitada, por cima das cinzas de uma
fogueira. O Zé passou pela cachorra e entrou na casa. No seu quarto encontrou, debaixo
de um amontoado de cobertas, o revolver calibre 38, que já estava com munição.
Então,
ele se lembrou de um cachorro que ele teve, chamado Piloto, que durante a vida
deu provas de amizade e lealdade. Piloto nunca estranharia o próprio dono.
Cachorro alegre e brincalhão, como era grande! Ele tinha o pêlo marrom e o seu
latido era forte como um trovão. Zé se lembrou também da triste fim do
cachorro, que morreu na beira da estrada de cansaço, exausto, depois de uma
longa viagem, na qual o Zé levava gado para outra fazenda. Piloto estava um
pouco velho e acima do peso, mas mesmo assim, ajudou a conduzir o gado,
cercando em muitas encruzilhadas.
Quando
voltou dessas lembranças, Zé já estava ao lado da Piranha, com o revolver
apontado em direção a cabeça da cachorra.
Uai Alisson, que que deu no Zé, cara?...
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