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terça-feira, 28 de maio de 2013

O catador de papelões

Na principal avenida da cidade, tida como a que tem o maior número de lombadas do país, os carros vão e vem. As luzes dos semáforos acendiam e depois apagavam sem parar. Um letreiro informava as horas e a temperatura do dia quente com sol a pino. Pelas calçadas o movimento não era menos intenso, pedestres (dos mais variados possíveis) caminhavam apresados aos seus trabalhos. Num canto da avenida longa um acontecimento digno de atenção: um senhor dentro de seu carro importado estende a mão com dois reais entre os dedos a um catador de lixo. 

O moço do carro sorriu com o agradecimento sincero do outro, que de semblante sério mostrou felicidade grande. Na carrocinha puxado pelo próprio trabalhador, que era novo, pois ainda não tinha trinta e cinco anos de idade, havia papelões empilhados...

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Geraldo Melo



           Seu Geraldo Melo. Companheirão. Homem trabalhador. Nascido e criado a vida inteira na roça. Cuidou dos dois filhos homens. A mulher morreu ainda nova de doença misteriosa. Ela estava boa, satisfeita. De repente ficou de cama. Ele nunca arrumou outra mulher. Os meninos, na época, eram bem pequenos. Hoje, homens criados. Velho rico e esperto. Nunca deu nó cego. Nunca gastou o seu dinheiro à toa.
Geraldo Melo. É homem sério e trabalhador. Trabalhou a vida toda na roça. Tem mais de trinta alqueires de terra, que foram muito bem adquiridos. Nunca precisou roubar. Pai do Zé Melo. Este, homem bravo da cara fechada. Não leva desaforo pra casa, não! Sujeito orgulhoso. Já enfrentou homem rico e homem pobre. Para ele, tudo a mesma coisa. Juntado com mulher divorciada; mora num rancho perto da casa do pai, lá na “Cachoeira dos Costas”. O seu outro filho, Teotônio, é rapaz discreto e calado. O oposto do filho mais velho. Sossegado, mora até hoje na casa do pai. Quase não vai a rua, só em caso de muita precisão mesmo. É ele quem cozinha o almoço. Atencioso, parece até uma moça.
Compadre Gerado Melo. Agiota. Empresta dinheiro a juros para os outros. Nunca amolou ninguém, não que eu saiba. Nunca fez lama na casa dos outros. Coitado, há pouco tempo sofreu acidente grave. Ficou sem poder andar por uns dois meses. Você não ficou sabendo? Já tinha anoitecido. Uma vaca de leite entrou no quintal de casa. O velho chamou pelo filho. Mas, Teotônio estava na horta e não escutou. Sistemático. Sempre gostou de resolver as coisas na mesma hora, sem incomodar ninguém. Então, desceu as escadas da varanda e saiu no terreiro. Tocou a vaca, que berrava em busca do seu bezerro. Em cima de uma ponte, ele se desequilibrou e caiu no córrego. Na queda, uma perna quebrada e vários hematomas pelo corpo afora. Teotônio ficou desesperado. Até promessa pela saúde do pai o rapaz fez.
Companheiro Gerado Melo. Eu já peguei dinheiro emprestado com ele. Mixaria. Mas paguei sem demora. Dias atrás, você não acredita que entraram na casa dele! Pobre coitado. Foi apanhado de surpresa. Ele devia estar desprevenido. Dois homens armados apareceram nos fundo da casa. Pularam a janela e entraram. Dentro de casa, renderam pai e filho, na maior covardia. Levaram revolver trinta e oito, e uma espingarda velha. Uma garrucha, objeto de estimação, que o Seu Gerado tinha ganhado quando ainda era criança também se foi. Dinheiro? Os assaltantes levaram vinte e seis mil reais em dinheiro vivo e uma nota promissora, que estavam guardados na gaveta da cômoda, em um dos quartos da casa. Só não levaram mais porque o restante do dinheiro estava emprestado. Cinquenta e cinco mil reais, a um por cento de juros ao mês. Foragidos, até hoje ninguém deu notícia dos bandidos.